cheirando a guardado

o que fui guardando na memória do gostar ...

agosto 16, 2010

Cem dias ...


(...) Lutando contra as ondas para manter o rumo que desejava e, prestando atenção para não levar um golpe dos remos no peito, quase não percebi uma gaivota estranha, pairando no céu, me acompanhando em cada movimento. Que faria ali em cima, me observando com tanta precisão? Que vista fantástica deveria ter, poucos metros acima, e um horizonte tão maior que o meu. Totalmente negra e muito maior do que todas que já vira. Era linda. Não movia um milímetro sequer a ponta das asas. Simplesmente se sustentava no vento.  Imaginei-me visto de cima. Que pensaria uma ave tão perfeita ao encontrar tão estranho e desajeitado ser entre as ondas, debatendo-se com as asas dentro da água? De fato, diante de formas tão finas e aerodinâmicas, de um conjunto tão harmonioso de equilíbrio e movimento, nada poderia parecer tão inadequado e impróprio para cruzar o oceano do que um ser humano movido pela força de seus braços e arrastando um par de madeiras na água.

Mas a "águia negra", como a chamaria mais tarde, em seu elegante e impecável voar, quase zombando da precariedade de meus braços e pernas, me fez pensar. Ela também buscava a terra, e com seu perfeito e inexplicável instinto de navegação, haveria de alcançá-la. No entanto o que nos separava não eram alguns metros de altura acima do mar ou a imperfeição de formas e movimentos, mas algo superior e poderoso que torna os homens diferentes dos animais e que os faz  resistir além de suas forças, alcançar limites acima do possível: a vontade.

Minha amiga, a "águia negra", poria seus ovos em terra, não duvidava, porque assim é o seu instinto. Mas eu poria os pés no Brasil porque estava determinado até os ossos a fazer isso. Ainda que os remos se partissem. Ainda que tivesse que remar com as asas. (...)

Amyr Klink, in Cem dias entre céu e mar 
(Editora José Olympio, 16ª edição, pág. 120)



Amyr Kink,  navegador brasileiro e escritor. Cem dias entre céu e mar é o relato sobre a travessia  solitária de sete mil quilómetros que empreendeu  num barco a remos,  entre Luderitz,  Namíbia, e Salvador, Brasil, de 10 de junho a 19 de setembro de 1984.




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1 Comentários:

Blogger chica disse...

Essa foi uma grande viagem.Linda!abraços,chica

17 de agosto de 2010 às 09:46  

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